Na atual batalha de informação travada pela grande mídia[1], os fatos e dados têm perdido, peremptoriamente, a importância em detrimento da informação que a mesma busca veicular. A máxima de São Tomás de Aquino, de que contra fatos não há argumentos, tem sido muitas vezes espancada pela grande mídia, trazendo uma confusão para aqueles que querem se informar sobre a verdade, nos mais variados temas.

O objetivo deste artigo é evidenciar como minorar os riscos de ser enganado por alguma notícia que não corresponda à realidade. Para tal, utilizarei como caso concreto o exemplo de Ahmed Mohamed, jovem muçulmano que foi preso nos EUA em função das autoridades terem supostamente confundido um relógio com bomba, que estava em sua mochila.

 Algumas informações preliminares são de imperiosa importância antes de partirmos para a análise do caso concreto.

Não resta dúvida de que um dado não existe fora de um contexto. Por isso a notícia pode até ser exata, ou seja, existir na realidade, mas ao mesmo tempo ser manipulada conforme a imagem daquilo que se quer apresentar.

Lembrem que jornalistas e editores são seres humanos com idiossincrasias (muitas vezes com forte viés ideológico político ou cultural, ou ambos) que podem fazê-los criar um contexto diverso sem, necessariamente, alterar dados ou eventos. Outro ponto que merece destaque é o fato de, muitas vezes, esses profissionais não possuírem preparo teórico, para avaliarem se um dado ou evento está corretamente contextualizado.  Assim sendo, a notícia pode descrever o fato de maneira distinta da realidade, o que pode induzir o leitor, telespectador ou internauta a desenvolver percepções e opiniões condicionadas pela descrição jornalística distorcida. Tomem cuidado para não serem induzidos ao erro!

Depois de muito ler sobre a mídia em geral, não tenho dúvidas de que as redações de jornais não são um ambiente democrático onde se discutem posições e atitudes. Pelo contrário, o que prevalece são os interesses “industriais” de produção de notícias.

O processo de distorção informativa incitado pela manipulação de contextos e aliado à avalanche diária de informações que invadem as nossas mentes, permite-nos perceber como é de suma importância identificar a origem de uma notícia. Ou seja, não acredite prontamente em uma notícia sem a checagem mínima da sua exatidão, veracidade e contexto. Esta é uma tarefa que você, caro leitor, infelizmente, terá que realizar sozinho.

Para facilitá-lo, trarei dois conceitos que me são muito caros, e que utilizo (com as devidas adaptações) ao analisar os mais diversos tipos de informações e discursos. Estou falando da retórica e da dialética. Para tanto, socorrer-me-ei do Professor Olavo de Carvalho[2].

Segundo ele, a retórica visa, essencialmente, a persuadir alguém a fazer ou deixar de fazer alguma coisa. Todo discurso retórico contém, de maneira mais ou menos explícita, um comando ou um apelo. Ele tenciona que esse apelo seja atendido, esse comando obedecido.

O discurso retórico emite sempre uma ordem ou pedido que, mesmo implícito, será sempre concreto e determinado.

A credibilidade do discurso retórico consiste, em sua faculdade, fazer o ouvinte querer alguma coisa (ou rejeitar alguma coisa). Este efeito se obtém por uma identificação, ao menos aparente e momentânea, da vontade do ouvinte com a vontade do orador. Este faz o ouvinte sentir que a proposta contida no discurso coincide, em última instância, com a vontade íntima do próprio ouvinte.

O discurso retórico apela, no fundo, ao sentimento de liberdade do ouvinte, ao seu impulso de decidir, de agir por si mesmo, de afirmar sua vontade. Pretende convencer por meios racionais, independentemente da vontade do ouvinte ou até mesmo contra ela.

Para que isto se torne possível, não é necessário outra condição preliminar senão que o ouvinte admita a arbitragem da razão e aceite algumas premissas em comum com o orador, geralmente tiradas das crenças correntes do seu meio social ou cultural, do senso comum ou do consenso científico.

Com relação à dialética, resumidamente, pode-se dizer que é um debate onde há ideias diferentes, onde um posicionamento é defendido e contradito logo depois. Em outras palavras, à dialética caminha na direção de separar os fatos, dividir as ideias para poder debatê-las com mais clareza. Com ela, pode-se chegar à verdade através da contraposição e reconciliação de contradições.

A credibilidade do discurso dialético depende de dois principais fatores: a) O ouvinte tem de se comprometer a seguir a lógica do argumento e a aceitar como verdadeiras as conclusões que não possa refutar logicamente; b) É preciso encontrar um terreno comum de onde tirar as premissas.

O discurso dialético dirige-se a um ouvinte que pretende conduzir-se de maneira racional e razoável, que aceite submeter sua vontade à razão, e que possua alguns conhecimentos em comum com o orador. Seu sucesso depende de que encontre um ouvinte nessas condições.

Resumindo: a retórica tem como objetivo convencer pelos argumentos, mesmo que a notícia não seja verdadeira, isto pouco importa. Com a dialética buscamos as origens das premissas que suportam a notícia e, por contraposição das idéias, buscamos a verdade.

Transpostos os conceitos de retórica e dialética, vamos analisar, na Parte 2 deste artigo, o caso do jovem Ahmaed Mohamed, onde apresento a notícia na forma que ela apareceu na Grande Mídia, procurando apontar o que julguei importante na identificação da retórica de convencimento dos veículos de comunicação.

[1] O conceito de Grande mídia utilizado aqui faz referência aos meios de comunicação (jornais, rádios, televisão, mídia de internet, etc.)

[2] Estes conceitos foram retirados do Livro Aristóteles em Nova Perspectiva (Olavo de Carvalho). Sugiro a leitura deste livro para aqueles que querem se aprofundar na visão aristotélica sobre poética, retórica, dialética e lógica.

 

 

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André Machado
Cristão, casado há 19 anos, tem três filhos. Foi Sargento da Força Aérea durante 8 anos. Ocupa o cargo de Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil desde 1998, tendo desempenhado diversas funções em comissão e em assessoria, com destaque para o de Diretor de Fiscalização Substituto, Coordenador Geral de Planejamento e Chefe do Escritório de Fiscalização no Rio de Janeiro (todos na PREVIC). Também atua como professor da Escola Nacional de Administração Pública (ENAP), na área de Gestão e Planejamento. Possui graduação em Administração pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1994); Pós-graduação em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas/RJ (2001); Pós-Graduação em Previdência Complementar pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2003); Mestrado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal Fluminense (2005); Advanced Leadership Seminar / Haggai Institute- 2008 (USA); Pós-Graduação em Política e Estratégia pela Escola Superior de Guerra (2011).

3 COMENTÁRIOS

  1. André! Nem li ainda a segunda parte. Mas esta primeira dá gosto de ler. Precisamos muito ajudar os irmãos a não cairem não apenas nas mentiras da mídia, mas principalmente equipá-los com meios que os ajudem a raciocinar. Raros vão se dedicar a ler Aristóteles ou Olavo de Carvalho. Alguns porque julgam que aprender a pensar logicamente, é coisa de erudito. Os poucos que recebem um pouco mais do que a grande mídia oferece, são os que vão para as universidades e acabam se tornando discípulos de Foucault, o que só faz piorar a situação. Você, neste artigo, consegue trazer de forma bastante concisa o chamado à capacidade para o debate e a análise de idéias que se contrapõe. Parabéns. Torço para que este site se torne acessado por milhares.

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