Nesta virada de ano, novamente vimos ocorrer, em alguns países da Europa e na América do Norte, ataques ao Natal e tentativas de suprimir das comemorações natalinas os símbolos tradicionais e as referências ao nascimento de Cristo.

No Vaticano, uma moça participante de um grupo feminista militante chamado Femen,  avançou sobre o tradicional presépio montado na Praça San Pedro, com o torso nu e pintado com uma inscrição em inglês que dizia “God is woman” (Deus é mulher), frase que ela repetia aos berros, enquanto surrupiava a imagem do menino Jesus, sob o olhar atônito de dezenas de turistas. Perseguida e interceptada por soldados da guarda suíça, ela continuou a gritar seu lema, até ser retirada do local.

Na França, o jornal Le Figaro do dia 24 de dezembro observou o clima de “crispação” em torno dos símbolos religiosos no período de Natal. As comemorações natalinas viraram um campo de disputas simbólicas e ideológicas, e o uso da própria palavra Noël (Natal) passou a ser designado pela mídia e por formadores de opinião como algo “polêmico” e potencialmente ofensivo a setores laicistas, islâmicos e não cristãos da sociedade francesa. Nesse clima de tensão, agentes econômicos e governamentais resolvem mudar a forma de abordar e promover a festa. Dois exemplos. A gigante cervejaria multinacional Anheuser-Bush InBev rebatizou sua tradicional edição da cerveja “Leffe de Noël”  para um nome mais neutro, que faz menção apenas à estação do ano e não mais à natividade: “Leffe d”hiver”.   Já na cidade de Potiers, região da Nova Aquitânia, a prefeitura mudou o nome das comemorações de “Fete de Noël” para “Fete de Leön”, lançando mão de um anagrama, a princípio bem humorado, mas que no fundo parece esconder a preocupação de não evocar o nascimento de Jesus.

No Canadá, a controvérsia a respeito dos símbolos natalinos vem ocorrendo há pelo menos dez anos. Em Ontário, desde 2007, escolas públicas têm suprimido o termo “Christmas”, substituindo-o por “festividades, festejos, festival”, a fim de agradar as famílias que professam religiões não cristãs, mas, no mesmo ato, desagradando as famílias cristãs.  Em Montreal, a prefeitura alterou o nome de uma festa pública de “Joyeux Noël” (Feliz Natal)  para Joyeux Décembre (Feliz Dezembro). Em 2011, uma consulta à população indicou que a maioria preferia que se mantivesse a utilização da palavra Noël. Mesmo assim, isso não impediu que empresas e instituições de governo continuassem retirando os símbolos natalinos da vista do público.  Presépios, por exemplo, praticamente não são mais exibidos em todo o país. Em 2013, um colunista do site Huffington Post afirmou que desejar “Merry Christmas” (Feliz Natal) no Canadá tinha se tornado politicamente incorreto.

Na Suécia, a Igreja de Västeras, bela cidade portuária a cem quilômetros de Estocolmo, anunciou a celebração do nascimento de Cristo no jornal local,  porém com uma inovação inusitada, referindo-se a Jesus por meio de um pronome pessoal de gênero neutro, hen. A língua sueca sempre utilizou o pronome masculino han – ‘ele’, e o pronome feminino hon – ‘ela’. Agora foi criado um novo pronome que indica um terceiro gênero, nem masculino, nem feminino. Segundo o jornal Expressen, a responsável pela Igreja, prelada Susana Senter, justificou a mudança dizendo que a Igreja na Suécia tem levado a cabo um amplo projeto de igualdade de gênero, e que a decisão foi tomada para respeitar a visão progressista segundo a qual o gênero não é determinado no nascimento da pessoa, mas construído no curso de sua vida. Para ela, além disso, do ponto de vista teológico seria mais adequado tratar Jesus como alguém que está além da dicotomia sexual.

Na internet, o Google atuou de maneira mais sutil e indireta, mas não menos sectária.  A empresa bilionária, que costuma apresentar ícones especiais em sua página principal (chamados “doodles”), com motivos temáticos os mais variados, referentes a efemérides mundiais mais heterogêneas, simplesmente ignorou o Natal.  Parece uma banalidade, mas para se ter idéia de sua ordem de prioridades, basta lembrar que o Google já comemorou, por exemplo, o 17º aniversário de Xiaolüren.  Quem?  Pouca gente tem ideia de quem seja, mas trata-se do bonequinho verde que indica ao pedestre o comando “siga” nas modernas sinaleiras de trânsito, muito utilizadas na China.  Já o 2017º aniversário de Jesus Cristo não mereceu a mesma atenção.  No fim, a empresa criou um doodle genérico, simbolizando as festas de final de ano, onde figuravam aves dos continentes frios (pinguins) e tropicais (tucano e arara) trocando presentes, mas sem qualquer alusão ao Natal ou mesmo ao papai Noel.

Também nos Estados Unidos, as polêmicas natalinas são comuns há mais de uma década. Nos anos 2000 a contenda se deu em torno das árvores de Natal, que alguns governos estaduais haviam resolvido rebatizar de “holiday trees” em vez do tradicional Christmas trees.  Em 2002, por sua vez, as escolas públicas de New York baniram a exibição de presépios natalinos, mas mantiveram a permissão para exibição de símbolos islâmicos e judaicos, num caso que foi parar na Suprema Corte (Skoros v. City of New York).  Nos últimos dois anos, os embates se intensificaram, visto que o presidente Donald Trump resolveu tomar a defesa do Natal, anunciando, desde o período da campanha eleitoral, que em seu governo os americanos poderiam voltar orgulhosamente a dizer “Merry Christmas”. Isso acendeu a reação dos comentaristas políticos de esquerda.  O jornal The New York Times (edição de 19 de dezembro de 2016) tentou minimizar o caso, negando a existência da guerra ao Natal e atribuindo à rede de televisão Fox News a origem de toda a polêmica. Já a revista Newsweek, na edição de 24 de dezembro de 2017, adotou uma postura agressiva e associou a atual defesa do Natal a grupos nazistas e supremacistas brancos. A matéria, de título acusatório e infamante – “How Trump and the Nazis stole Christmas to promote white nationalism” (como Trump e os Nazistas sequestraram o Natal para promover o nacionalismo branco) –, sugeria que, tal como os nazistas, o governo Trump utilizava o Natal para fomentar o sentimento de identidade racial ou nacional dos brancos cristãos nos Estados Unidos.

No Brasil, país em que, como sabemos, o povo é majoritariamente cristão (segundo o último censo, quase 90% da população, somando-se católicos e evangélicos),  ainda não há sinais evidentes de uma guerra ao Natal e seus símbolos.  Por enquanto o máximo que vemos são alguns professores e estudantes universitários  recusando-se a dar votos de “Feliz Natal”, e optando por fórmulas genéricas como “Boas Festas”. De todo modo, uma vez que não estamos imunes às influências culturais que vêm dos países ditos desenvolvidos, e como esses movimentos não são fenômenos isolados e sim articulados, é possível que nos próximos anos, iniciativas anti-natalinas comecem a tomar corpo igualmente entre nós.

Como entender esses movimentos?   Qual o sentido da guerra ao Natal?   As respostas não são simples. Em artigos futuros, pretendo retomar o assunto e tentar lançar alguma luz sobre as guerras culturais, religiosas e simbólicas que se travam contemporaneamente.

Enquanto isso, continuemos celebrando o Natal, o nascimento do Cristo, e a mensagem de consolo, paz e esperança lançada a todos os homens e transcendente a todas as guerras.

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Cesar Gordon
Antropólogo, doutor e mestre pelo Museu Nacional da UFRJ. Professor Associado do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Foi Professor Visitante do Laboratoire d'Anthropologie Sociale do Collège de France, em Paris. Realiza pesquisas com populações indígenas da Amazônia desde 1998. Tem publicado diversos artigos e capítulos em periódicos e livros nacionais e internacionais na área de antropologia. É autor do livro "Economia Selvagem: ritual e mercadoria entre os índios Xikrin-Mebengokre, premiado em 2007 como a Melhor Obra em Ciências Sociais no Brasil, no Concurso da Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais, ANPOCS.

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